Como a rã de quadrinhos de Matt Furie se tornou uma criptomoeda
Pepe the Frog viajou de um quadrinho indie de 2005 ao 4chan até uma criptomoeda no top 100. Trace a jornada cultural do mascote mais controverso do cripto.
Índice
A história da moeda PEPE não começa com tecnologia blockchain ou mercados financeiros, mas com uma história em quadrinhos sobre quatro companheiros de apartamento preguiçosos e um sapo verde que gostava de abaixar as calças até o chão para usar o banheiro. O Pepe the Frog de Matt Furie percorreu um dos caminhos mais estranhos da história cultural: de um quadrinho independente a meme da internet, de símbolo político a criptomoeda bilionária. Ao longo do caminho, o personagem escapou completamente do controle de seu criador, tornando-se algo que Furie nunca pretendeu e jamais poderia ter imaginado.
Boy's Club: Onde Pepe Nasceu
Matt Furie, um artista baseado em San Francisco, criou o Pepe the Frog como personagem de sua série de quadrinhos "Boy's Club". A primeira edição, autopublicada em 2005, retratava quatro personagens antropomórficos — Pepe, Brett, Andy e Landwolf — morando juntos e se envolvendo no tipo de humor absurdo e descomplicado que caracterizava a cultura slacker dos millennials.
Pepe era o membro descontraído do grupo. Tinha uma boca larga, olhos semicerrados e um comportamento relaxado. Furie o desenhou em um estilo simples e solto, com pele verde e corpo humanoide. O momento mais famoso do personagem nos quadrinhos veio de um painel onde Pepe, flagrado abaixando as calças até os tornozelos no mictório, explicou com um sorriso: "feels good man" (é uma boa sensação).
"Feels good man" se tornou a frase mais associada ao Pepe e acabaria servindo como base para a explosão memética do personagem. Mas em 2005, Pepe era apenas um personagem em um quadrinho independente obscuro com um pequeno séquito de fãs.
O Meme Emerge
Por volta de 2008, o painel "feels good man" do Boy's Club começou a circular no 4chan, o fórum anônimo que serviu como incubadora para muitos dos memes mais influentes da internet. Usuários do board /b/ (aleatório) do 4chan postavam a imagem em vários contextos, e outros usuários começaram a redesenhar o Pepe em diferentes situações, com diferentes expressões e diferentes legendas.
O meme se espalhou para o MySpace, Tumblr e, eventualmente, Reddit e Twitter. Cada plataforma desenvolveu sua própria subcultura de Pepe. O design simples do personagem tornava fácil redesenhá-lo e modificá-lo, e sua expressão neutra e maleável podia ser adaptada para transmitir praticamente qualquer emoção. Pepe triste, Pepe furioso, Pepe presunçoso, Pepe surpreso — o sapo se tornou um recipiente para toda a gama emocional da internet.
Em 2014, Pepe havia se tornado um dos memes mais amplamente compartilhados da internet. Celebridades incluindo Katy Perry, Nicki Minaj e numerosos atletas postaram imagens do Pepe em suas redes sociais. O personagem havia alcançado reconhecimento mainstream enquanto ainda mantinha sua credibilidade underground. Pelos padrões da cultura da internet, era uma era dourada para o sapo.
A Virada Sombria
Em 2015 e 2016, a jornada cultural de Pepe tomou um rumo sombrio. O personagem foi adotado por diversas comunidades extremistas online, que usaram imagens do Pepe para disseminar conteúdo político inflamatório. A apropriação não se baseava em nada inerente ao personagem — Pepe não tinha dimensão política na obra original de Furie — mas a ubiquidade e adaptabilidade do personagem o tornaram vulnerável a ser cooptado.
A situação se intensificou durante a eleição presidencial dos EUA de 2016, quando imagens de Pepe foram amplamente associadas a movimentos políticos marginais. Em setembro de 2016, a Anti-Defamation League (ADL) adicionou o Pepe the Frog ao seu banco de dados de símbolos de ódio, com a ressalva de que a maioria dos usos do Pepe não era odiosa e que o personagem havia sido apropriado em vez de criado para propósitos extremistas.
Matt Furie ficou devastado. Ele havia criado um personagem gentil e bobo sobre amizade e humor corporal, e ele havia sido transformado em algo irreconhecível. Furie lançou uma campanha "Save Pepe", tentando inundar a internet com imagens positivas do Pepe. Em 2017, em um gesto simbólico, Furie desenhou uma tirinha na qual Pepe morria, com seus amigos comparecendo ao funeral.
Mas não se pode matar um meme. Pepe persistiu em todos os cantos da internet, em todas as variações concebíveis.
A Luta Jurídica de Furie
Furie também recorreu a ações legais para retomar o controle de sua criação. Ele entrou com processos por violação de direitos autorais contra vários indivíduos e organizações que haviam usado imagens do Pepe para fins comerciais sem permissão, incluindo um autor que usou o Pepe na capa de um livro político. Furie obteve acordos e decisões favoráveis em vários casos, estabelecendo que ele mantinha os direitos autorais sobre o personagem, mesmo tendo sido infinitamente reproduzido e modificado online.
Essas vitórias legais foram simbolicamente importantes, mas praticamente limitadas. A lei de direitos autorais podia tratar de usos comerciais específicos do Pepe, mas não podia desfazer a transformação cultural do personagem. Pepe pertencia à internet de uma forma que nenhum arcabouço jurídico poderia abordar completamente.
Token PEPE: O Sapo Entra no Mercado Financeiro
Em 17 de abril de 2023, um desenvolvedor ou grupo de desenvolvedores anônimos lançou o token PEPE na blockchain Ethereum. O token não tinha utilidade, nem roadmap, nem equipe por trás dele em nenhum sentido tradicional. Era uma memecoin pura — uma criptomoeda cujo valor derivava inteiramente do reconhecimento cultural e do entusiasmo da comunidade.
O timing foi significativo. O mercado cripto estava emergindo do brutal bear market de 2022, e os traders estavam famintos pelo próximo grande acontecimento. Memecoins já haviam provado sua capacidade de gerar retornos enormes durante ciclos anteriores (Dogecoin e Shiba Inu sendo os exemplos mais proeminentes), e o PEPE chegou com o personagem meme mais famoso da história da internet como mascote.
Os resultados foram extraordinários. Em poucas semanas após o lançamento, a capitalização de mercado do PEPE disparou para centenas de milhões de dólares. Em maio de 2023, havia ultrapassado 1,6 bilhão de dólares. Compradores iniciais que investiram algumas centenas de dólares se viram com posições valendo centenas de milhares. O frenesi atraiu cobertura da mídia mainstream e gerou comparações com o rally do Dogecoin em 2021.
A ascensão do PEPE foi impulsionada por vários fatores:
Reconhecimento de marca: Pepe the Frog era possivelmente o personagem meme mais amplamente reconhecido do mundo, dando ao token moeda cultural instantânea.
Nostalgia: Para muitos usuários da internet, Pepe representava a era despreocupada da cultura inicial da internet. Comprar PEPE era, em parte, um ato nostálgico.
Formação de comunidade: Os detentores de PEPE rapidamente formaram uma comunidade ativa no Twitter e Telegram, criando conteúdo, promovendo o token e construindo a infraestrutura social que sustenta memecoins.
Mecânica de negociação: O token foi listado em grandes exchanges descentralizadas imediatamente e foi rapidamente adotado por exchanges centralizadas, tornando-o acessível a um amplo público.
Complexidade Cultural
O token PEPE herdou toda a complexidade cultural do meme Pepe. Alguns observadores criticaram o token por lucrar com um personagem que havia sido associado a imagens de ódio. Outros argumentaram que o PEPE fazia parte de um esforço mais amplo para resgatar o Pepe para propósitos positivos e humorísticos — que o token representava a identidade mainstream e cômica do sapo em vez de sua identidade política cooptada.
Esse debate nunca foi totalmente resolvido, e não precisava ser. Memecoins existem em um espaço cultural onde a ambiguidade é uma característica, não um defeito. A mesma distância irônica que caracterizou os primeiros memes do Pepe — a sensação de que nada deveria ser levado completamente a sério — permeou a comunidade do token PEPE.
A relação de Matt Furie com a moeda PEPE tem sido complexa. Sua equipe jurídica monitorou usos comerciais não autorizados do personagem Pepe, enquanto o próprio Furie continuou a defender interpretações positivas de sua criação. O documentário de 2020 "Feels Good Man" narrou a tentativa de Furie de resgatar o Pepe, e o token PEPE adicionou mais um capítulo a essa saga cultural em andamento.
O Fenômeno das Memecoins
O sucesso do PEPE confirmou e ampliou a tese das memecoins: que nos mercados de criptomoedas, a relevância cultural pode ser mais valiosa do que a inovação tecnológica. O PEPE não tinha capacidades de contratos inteligentes, nem integrações DeFi, nem inovações em blockchain. Era um token ERC-20 com um sapo nele. E valia bilhões.
Isso desafia suposições convencionais sobre valor nos mercados financeiros. As finanças tradicionais avaliam ativos com base em fluxos de caixa, potencial de lucros e utilidade. Memecoins são avaliadas com base em ressonância cultural, força da comunidade e na crença compartilhada de que outras pessoas acharão o meme engraçado o suficiente para aderir.
A trajetória do PEPE — de um personagem de quadrinhos desenhado à mão em 2005 a um instrumento financeiro de 1 bilhão de dólares em 2023 — é talvez o exemplo mais extremo de como a cultura da internet e os mercados financeiros convergiram. O sapo do "feels good man" percorreu um longo caminho desde o caderno de esboços de Matt Furie, e a jornada não mostra sinais de terminar.